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Pandemia dificulta atendimento de emergência para pacientes falcêmicos

Pacientes afirmam que precisam de um atendimento de emergência por contas das crises que sofrem


21/06/2020 às 05:16h

Pandemia dificulta atendimento de emergência para pacientes falcêmicos
Crédito: Breno Esaki/SES

“Tudo é mais difícil para quem é portador da anemia falciforme e a única porta que estava aberta para gente com facilidade agora se fechou, que era o Hospital Dom Pedro de Alcântara”, o depoimento é de Verônica Trindade dos Santos, paciente falcêmica de Feira de Santana. Como se não bastasse à convivência com uma das mais graves doenças genéticas, o acesso a urgência e emergência para os casos de crises não acompanha as necessidades de quem sente fortes dores, precisam de atendimento e a única solução que tem é a rede pública.


É a mesma reclamação de Sandoval da Cruz Coutinho, 35 anos, que vai mais além: “Com a questão da pandemia se agrava mais a situação de que a gente não poder passar por esses hospitais. Precisamos de hospital de porta aberta, visto que a anemia falciforme evolui muito rápida”, disse. Ele, como muitos outros pacientes com doença falciforme, são acompanhados forma ambulatorial no centro de referência que fica no Centro Social Urbano (CSU), em Feira de Santana, com atendimento multidisciplinar voltado aos falcêmicos.


E neste período em que o setor de saúde, principalmente a rede pública, sofre uma pressão devido aos atendimentos de pacientes acometidos pela Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, a questão citada por Sandoval é outro fator que dificulta a assistência aos falcêmicos. A reportagem do FOLHA DO ESTADO entrevistou o chefe do setor de emergência do Hospital Dom Pedro de Alcântara (HDPA), da Santa Casa de Misericórdia, o Drº Rodrigo Matos, que explicou as mudanças que o cenário pandêmico causou no hospital e que afetou a estes pacientes.


O gestor começou explicando que o HDPA é um hospital de alta complexidade, cuja emergência não atende a demanda espontânea, ou seja, não é porta aberta, sendo referência em cardiologia, oncologia e transplante renal e cardíaco. “Referência é habilitação. Assinamos contratos com Ministério da Saúde e passamos a ser a referência da região para esses serviços de alta complexidade. Para ser referência precisa de uma série de quesitos a cumprir, uma delas é ter uma porta de emergência para estes tipos de pacientes. Os pacientes quando tem uma urgência tem que ter uma equipe que é diferenciada, treinada e especializada para esses pacientes”, disse.


Com relação aos pacientes falcêmicos, o médico disse que o hospital não é referência para este público e contou de que forma era realizado este atendimento. “Os pacientes de anemia falciforme passaram a ter acesso de forma informal à emergência, por que são pacientes muito sofridos, nascem com essa doença, tem uma dor muito forte que são as crises álgicas, são pacientes que os médicos conhecem, mesmo bem tratados às vezes têm infecções que precisam internar e criam vínculos, nunca negamos isso, nosso conceito é filantropia, acontece é que nesse contexto de pandemia tivemos que fazer uma série de estruturações por questões de segurança. Tem áreas da emergência que foram isoladas, não somos referência em Covid, mas somos para pacientes oncológicos, separamos vários leitos para suspeita de Covid, para confirmados, mas até confirmar temos que dar assistência. Nossa capacidade instalada diminuiu. Não temos como abarcar todos, infelizmente”, explicou, acrescentando que a taxa de conversão, ou seja, os pacientes falciformes que chegam para atendimento e precisam de internação, é baixa, por volta de 1%.


Segundo o doutor Rodrigo Matos, o caminho é buscar unidades de atenção básica e se necessitar internação, esse paciente deverá ser regulado. “O que a grande maioria desses pacientes tem são crises álgicas e tem que fazer uso de soro e medicação para dor. Imagine, por exemplo, eu ter um paciente que mora na Mangabeira que tem se deslocar para o HDPA para tomar dipirona e soro. É mais racional que vá para UPA da Mangabeira e tome esta medicação. O desenho estava errado, mas às vezes a tomada de decisão vem em momentos de crise. Já não fazia sentido. A crise fez a gente rever nossos fluxos”, resumiu.


Argumento que parece não convencer Sergio Chagas Ribeiro, que também já foi atendido em momentos de crise nas dependências da unidade. “Quando tenho crises fortes vou para o Dom Pedro, mas hoje infelizmente não está recebendo mais pessoas com doenças falciformes. Vamos para onde agora? Estamos sem solução, de mãos atadas, não temos para onde ir quando sentimos dores fortes. Não tem como ir para Policlínica porque lá não teremos um atendimento adequado”, reclamou. “A gente sofre muito, o quão doloroso é saber que sofremos de uma doença e ficamos vulneráveis a bactérias e vírus e querem nos jogar para Policlínicas e UPAs onde o contágio é maior que em hospitais. O momento é difícil. É uma coisa que dói muito, é cruel”, completou Verônica, a primeira entrevistada. Segundo o documento “Doença Falciforme: Condutas básicas para tratamento”, do Ministério da Saúde, essas crises de dor em geral duram de 4 a 6 dias. A reportagem também apurou que no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), 100% SUS, o atendimento a este público para urgência se dá por regulação.


Associação luta por direitos


Fundada em 2012, a Associação de Pessoas com Doenças Falciformes de Feira de Santana (AFADFAL) busca abraçar estes pacientes de Feira de Santana e na região Centro Leste. Segundo o coordenador Fabrício Cabral do Nascimento, 35 anos, são pouco mais de uma centena de associados, mas em Feira de Santana são cerca de 900 pacientes falcêmicos.


"Tem muitas pessoas que têm a doença falciforme, mas não conhecem, tem os sintomas mas não sabem que têm a doença falciforme. Aqui em Feira de Santana temos o centro de referência que faz o atendimento a essas pessoas, que fica no CSU, esse centro de referência não atende urgência e emergência ele é multidisciplinar que é o acompanhamento que o paciente tem que ter. Ele vai fazer sua consulta, pega seus remédios. Quando as pessoas entram em crise, ele tem que procurar a urgência e emergência", comentou.


"É uma crise de dor intensa que muitas vezes nem a morfina dá jeito nessa dor, tem a crise torácica, que afeta os pulmões, dificulta a respiração e se não forem entubadas podem morrer. Elas precisam de um respirador, necessitam de um atendimento que não podem ficar em casa, necessitam de hidratação venosa, medicamentos fortes que só nos hospitais tem. Muitas vezes estão com infecção e precisam de antibiótico. Se esperar vai a óbito”, relata Fabricio.


Especialista pede atenção durante pandemia


O dia 19 de junho é lembrado como Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para dar visibilidade a esta população que no Brasil formam um grupo de cerca de 50 mil pessoas segundo o Ministério da Saúde.


Em entrevista ao FOLHA DO ESTADO, a Drª Téssia Caires, hematologista, explicou sobre o que é a doença falciforme. “É genética e diagnosticada por um exame de sangue chamado de eletroforese de hemoglobina onde a gente encontra a alteração que é a presença da hemoglobina S ou hemoglobina C que caracteriza o diagnóstico, existem diferentes formas de apresentação, onde chamamos de doenças falciformes, caso apresente a hemoglobina S ou a C apenas uma vez dizemos que é apenas portador ou portadora (traço falcêmico), não apresenta sintomas da doença, a doença só vai se apresentar caso SS ou SC em dose dupla, herdado do pai e da mãe".


A qualidade de vida para estes pacientes é variada, podendo apresentar sintomas leves, onde com medicação pode se manter estável. “Existe quem precisa usar medicações mais pesadas, agressivas, para o controle da doença. Muitos precisam do controle transfusional, fazer transfusões de sangue com frequência. A cura é difícil, já que é uma doença genética. Alguns pacientes têm a indicação de fazer o transplante de medula, mas como é de muito risco é indicado para pacientes com qualidade de vida bem diminuída. Geralmente são medicações e consultas frequentes com hematologistas", comentou.


A especialista também comentou outo fator, que estabelece um recorte social para esta doença. Ela é mais prevalente entre negros. “A incidência da doença é maior na África, onde existe a malária e em muitos casos ter a anemia falciforme se transforma em uma proteção. Sendo a Bahia a maior população negra do Brasil, é aqui onde tem a maior prevalência no país", disse. Segundo dados de 2012, do Ministério da Saúde, com base em informações dos Programas Estaduais de Triagem Neonatal, a incidência da doença falciforme em nascidos vivos na Bahia é de 1:650, a maior do país, ou seja, para cada 650 nascidos com vida, 1 terá a doença, que tem uma letalidade de 80% de crianças com menos de 5 anos de idade que não recebem os cuidados de saúde necessários.


A doutora Téssia Caires também comentou sobre como os falcêmicos devem agir neste momento de pandemia. "Vai depender do grau. Se não fizer uso de nenhum tipo de medicação diferente tem que ter os cuidados que qualquer pessoa tem que ter: isolamento social, usar máscara, álcool em gel, mas caso use um tipo de medicação chamada hidroxiuréia pode ter a imunidade mais baixa, então é recomendado o isolamento social mais restrito e se fez transplante de medula óssea o cuidado tem que ser maior ainda", alertou.


Segundo a especialista, os principais sintomas começam a se manifestar ainda na infância. "São dores nas articulações, cansaço e paciente ictérico, com a pele um pouco mais amarelada, são os sintomas mais clássicos da anemia falciforme", concluiu.

FONTE: Da Redação
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