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Como não odiar o parceiro durante a quarentena

Dicas para tentar resolver os principais dramas dos relacionamentos em tempos de pandemia.


24/05/2020 às 08:31h

Como não odiar o parceiro durante a quarentena
Crédito: Reprodução

Nas últimas semanas, pipocaram memes envolvendo pandemia e relacionamento: ‘Sem futebol e sem sair de casa, comecei a conversar com minha esposa... Parece gente boa’. ‘O último casal que terminar a quarentena junto que apague a luz’, e por aí vai.

 

Sabemos que toda brincadeira tem um fundo de verdade. No caso dessa, um baita fundo: a quarentena, de fato, tem gerado conflitos entre casais, confinados todos os dias, o dia inteiro, sob um mesmo teto. E isso tem preocupado os especialistas.

 

Psicólogos e terapeutas de casais fazem um guia para ajudar você – e seu parceiro ou parceira – na seguinte missão:

 

Como não odiar o meu parceiro nessa quarentena e ainda namorar um pouquinho?

 

O psicólogo e terapeuta de casal Elídio Almeida sugere que muitos dos conflitos que ‘surgem’ durante o isolamento social são, na verdade, mais antigos. E que a correria da rotina e a ‘preguiça’ de discutir a relação (a famosa DR), vão empurrando o problema para frente.

 

“No contexto da pandemia, de distanciamento social, as pessoas inevitavelmente passam a ter convivência mais intensa e não têm como fugir desse olhar para os problemas. E aí o casal pode atribuir conflitos que já existiam à essa convivência intensa, mas são reflexo de uma relação que não vinha bem de algum tempo ou com problemas postergados”.

 

E Almeida vai além. Para o profissional, justamente por não saberem como abordar esses problemas de forma direta, os casais recorrem a subterfúgios para extravasar a frustração ou mágoa. Ou seja, as pequenas coisas passam a ter uma conotação muito maior.

 

“Criança, bagunça, sujeira, o outro não parar de trabalhar, todo o contexto da convivência vira forma de comunicar a frustração. Só que pessoas falham ao expressar sentimentos e emoções, e ao invés de irem direto ao ponto acabam muitas vezes apontando o erro do outro: ‘você não fez isso, não fez aquilo’, acaba sendo comum”, diz Elídio Almeida, psicólogo.

 

Já a psicóloga e terapeuta familiar Maria Angélica Vitoriano aponta que um problema que vem aparecendo com mais frequência durante a pandemia é a divisão de tarefas domésticas e divisão de tempo para cuidar dos filhos.

 

“É uma questão que antecede a quarentena, porque se há dificuldades de pensar divisão de tarefas agora é porque ela já existia antes. O casal não dividia de maneira igual ou não faziam nada do trabalho doméstico ou mesmo cuidados com as crianças”, sugere Angélica Vitoriano.

 

Há ainda outro ponto a ser percebido: a hiper convivência acaba diminuindo ou acabando com o tempo a sós. “As pessoas estão sem privacidade em casa, se sentem o tempo todo observadas, com alguém por perto. E outra coisa é que todos nós estamos privados de nossas rotinas, de sair de casa, ir para o trabalho, praticar exercício, lazer”, enumera.

 

O QUE RECOMENDAM OS ESPECIALISTAS

 

1) Procure dialogar, e não apenas apontar problemas

 

A primeira orientação pode parecer óbvia, mas não é. É importante buscar o diálogo. “A gente percebe que os casais têm conversado cada vez menos sobre o que cada um sente. À medida em que conseguem tratar do que está bom e do que precisa ser melhorado, as pessoas tomam mais segurança para mudar atitudes. Se não tem diálogo, fica tudo na dependência do outro notar o que está mal e tomar uma atitude por conta própria”, explica o psicólogo Elídio Almeida. Para evitar conflitos no diálogo, é importante cultivar uma postura assertiva e não combativa. Ou seja: expressar o que está sentindo de maneira objetiva, para que o parceiro entenda exatamente o que você está sentindo. Ao mesmo tempo, sem diminuir ou agredir o parceiro, apontando erros e falhas. Enumerar erros pode criar uma ‘camada’ a mais de discussão, e fugir do cerne do problema.

 

“Não é fácil, mas se os casais criarem essa cultura da assertividade eles vão passar por esse momento adverso com bem menos danos. Sem criar subterfúgios que não são de fato o problema e sem fingir que nada está acontecendo” – Elídio Almeida, psicólogo e terapeuta de casais.

 

2) Busque sempre o lado mais positivo da relação

 

Para a psicóloga Maria Angélica Vitoriano, a convivência intensa favorece que os casais coloquem em perspectiva toda a relação. “O que mais estão me relatando é que as pessoas, por passarem muito mais tempo juntas do que antes, estão reparando mais em tudo o que é bom dentro do relacionamento, mas também em tudo o que não é bom”, disse. Para ela, apesar do momento também ser favorável para resolver alguns incômodos que estavam ‘sob o tapete’, faz bem alimentar a visão mais positiva dessa perspectiva. “É preciso colocar na mente que é bom buscar a parceria. Que o outro que está em casa é uma pessoa que às vezes nos desentendemos, mas é meu parceiro. É alguém que, assim como eu, está precisando de ajuda pois está passando por suas angústias, seus medos, suas apreensões. Portanto, ambos podem se ajudar nessa fase tão difícil”, explica.

 

“Quais são as habilidades e as qualidades que essa pessoa que está comigo possui para juntos atravessar essa situação tão adversa que, afinal, estamos vivendo juntos? Tem que priorizar essa visão de maior aceitação do outro” – Maria Angélica Vitoriano, psicóloga e terapeuta de casais.


3) Não siga as receitas genéricas de relacionamento

 

Entenda: não existe receita mágica ou ‘10 passos infalíveis’ para ajudar o relacionamento nessa quarentena. Generalizar é não respeitar a particularidade da relação. O diálogo é o único caminho para encontrar atividades que, de fato, ajudem: “Tem que contemplar a realidade do casal. Você ficar imputando essa ideia de que o casal precisa ter lazer juntos, precisa ver filme, precisa transar mais, numa situação tão atípica como a atual, em que existem tantas tarefas – domésticas, trabalho, filhos – pode na verdade gerar frustração. De repente, o saudável é mesmo priorizar essas obrigações”, explica Elídio Almeida. “Além disso, existem riscos. Pode tirar a espontaneidade do casal, fazer aquilo porque é ‘bonito’, mas não efetivamente por prazer. E também servir como fuga, fingir que nada está errado, quando na verdade os problemas do casal deviam ser encarados”, completa.

 

“Não gosto dessa ideia de ‘faça isso’ ou ‘faça aquilo’ para ajudar a sua relação nessa quarentena porque, com tantas tarefas e estresse do confinamento, trazer mais obrigações só vai gerar mais frustrações e piorar a ansiedade” – Elídio Almeida

 

4) Busque um lazer que faça sentido para os dois

 

Como visto, não faz bem ‘forçar a barra’ para ter momentos de lazer com o parceiro só porque te disseram que é importante. Mas isso não quer dizer que o casal não tenha que buscar momentos de prazer juntos. “Eu gosto mais da perspectiva do combinado. Chegar e dizer ‘eu tô afim de fazer isso hoje, o que acha’? Se for prazeroso para você também, então, maravilha, vamos fazer”, explica Elídio Almeida. No mesmo sentido, segundo ele, vale combinar de não fazer nada por estarem sem tempo, deixar a casa bagunçada por uns dias para priorizar outras obrigações... Desde que seja em acordo: “Tenho certeza que seja o que for – assistir um filme, jantar, arrumar a casa – será feito de bom grado por todos”, completa. Maria Angélica Vitoriano concorda: “Ter momentos de lazer mútuo, com um aproveitando a compahia do outro, vai ajudar a atravessar essa fase difícil”.

 

“O ideal é sugerir fazerem juntos algo que você pensou. Não é impor, e sim convidar. O caminho é descobrir juntos o que é agradável para ambos, e não só para um. Existem coisas que vocês não sabem, mas podem ser prazerosas” – Maria Angélica Vitoriano

 

5) Brigue, mas entenda de onde vem suas angústias

 

Se você não aguenta mais e quer mesmo discutir a relação, pense: o que te incomoda é algo criado pela convivência intensa da quarentena ou é alguma questão antiga, e que repercute até hoje? Isso vai te ajudar a identificar qual é realmente o problema, e não se enganar com desentendimentos que surgirão naturalmente no confinamento. Assim, você poderá se entender melhor. “Uma dica que dou é entender a cadeia dos seus sentimentos, o que vem antes e o que vem depois. Entender o que antecede o seu comportamento e o que ele desencadeia”, diz Elídio Almeida. “Se eu aceito que estou chateado com você por algo que me fez em 1980, ainda que eu tome a decisão de acabar a relação durante essa quarentena, vou ter a consciência e o máximo de tranquilidade de que estou acabando por aquilo, de 1980, que a gente não resolveu, e não por algo do momento”, exemplifica.

 

“Por não entenderem bem a cadeia dos seus sentimentos, as pessoas, no momento de expressão, acabam nomeando aquilo que está no primeiro plano, acontecendo naquele momento, quando na verdade existe outra motivação por trás” – Elídio Almeida

 

6) Ninguém é máquina de sexo nessa quarentena...

 

Não é porque você e seu parceiro ou parceira estão em casa o dia inteiro, ‘disponíveis’, que precisam transar o tempo todo. “Vamos ter consciência do contexto que vivemos, né? Pessoas preocupadas com emprego, com o negócio, com medo da doença, estressadas com a nova rotina, tendo que trabalhar de casa, cuidar dos filhos, limpar a casa... É claro que tudo isso vai gerar falta de disposição e diminuição drástica da libido”, conta Elídio Almeida. Da mesma forma que as atividades de lazer, ‘forçar a barra’ pode tirar toda a graça de transar. “Falo sempre para os casais que acompanho que é preciso parcimônia por conta do momento atípico. Ficar com essa cobrança pode gerar frustração e inclusive vai tirar a graça, porque vai ser só para cumprir uma expectativa social”, diz Elídio.

 

“Ficar exigindo de si e do outro é correr o risco de desconectar da realidade. E muitas vezes não vai ter prazer algum, vai fazer sexo só por uma obrigação e não vai ser legal. As expectativas precisam estar ligadas ao contexto em que vivemos” – Elídio Almeida

 

7) ... mas transar quando os dois querem ajuda demais

 

O sexo, obviamente, é uma das principais atividades de prazer do ser humano. E viver momentos de prazer, nesse contexto de ansiedade, obviamente que é positivo – desde que seja genuíno, e não forçando a barra. O caminho, assim como de todas as outras atividades de lazer, é compreender o momento do parceiro – suas angústias, suas precupações – e ir buscando um entendimento. “Sexo para a nossa cultura, além de uma questão fisiológica, está associado ao emocional, ao prazer, ao desestressar. Entrar em contato com o outro. Sexo é melhor conduzido quando a gente está numa situação de bem estar favorável e mútuo”, lembra o terapeuta familiar Elídio Almeida. “É preciso contextualizar a realidade do casal. Se der vontade, se for interessante para os dois e tiver uma privacidade, aí sim pode rolar, sem dúvida”, completa.

 

“O sexo só é legal quando os dois estão com vontade, os dois estão afim. Forçar barra consigo mesmo por uma expectativa que colocam sobre você ou esperar algo do outro não é legal, é danoso. Tem que ter espontaneidade para ter prazer” – Elídio Almeida

 

8) Não deixe que o trabalho vire um problema

 

A gente sabe como a nova rotina de trabalho pode ser angustiante, e de fato tomar mais tempo por estar sempre disponível, sem separar fisicamente o que é emprego e o que é casa. Mas é preciso impor limites e arrumar um tempo para estar ao lado do parceiro, ou dividir as tarefas domésticas. “Tem que se colocar como empregador da gente, estabelecer que horas de trabalho são limitadas. É bom se organizar com o patrão ou com o cliente. E também informar o parceiro do que está acontecendo, compartilhar as angústias e as dificuldades que você está passando para não conseguir controlar esse tempo”, orienta a psicóloga Maria Angélica Vitoriano. É necessário também se observar de maneira crítica, para perceber se não está usando o trabalho como uma desculpa para evitar o parceiro – e, consequentemente, todos os problemas de relacionamento acumulados.

 

“O limite tem que partir de você. Dizer ‘não posso ver agora’, desligar o celular. E também dividir com o parceiro as angústias que está vivendo, para que ele não encare o trabalho como sua desculpa para fugir do convívio” – Maria Angélica Vitoriano

 

9) Respeite a individualidade do seu parceiro

 

Não é porque vocês agora estão em casa o dia inteiro que têm que passar o dia inteiro juntos. Cada pessoa tem sua individualidade – trabalhos diferentes, amigos separados, atividades de lazer diversas – e isso é fundamental à saúde de qualquer relacionamento. Não é porque essas atividades estão impedidas por conta da quarentena que as pessoas não possam cultivá-las, muito pelo contrário. Por isso, compreenda a individualidade do seu parceiro: momentos de distanciamento, mesmo dentro de casa, são necessários. Assistir a filmes separados, ter atividades de lazer diferentes, é normal. Entenda que o outro desejar ficar sozinho durante parte do dia, assim como tirar um tempo para priorizar a relação com outras pessoas, não significa que o afeto por você foi diminuído.

 

“Respeite a individualidade do outro. Entenda – de uma vez por todas – que você não é Deus para atuar de forma onisciente, onipresente e onipotente frente ao seu companheiro ou companheira” – Elídio Almeida.

 

10) Tenha em mente: toda essa angústia vai passar

 

Por fim, uma orientação deve regular todas as anteriores: esse é um momento atípico, de muitas angústias, e com isso alguns conflitos naturalmente surgirão. Mas, sobretudo, é bom saber que tudo isso vai passar, e o relacionamento vai continuar. “É preciso entender que se trata de uma fase de muita sensibilidade. Não vamos também querer resolver tudo agora, colocar a relação inteiramente em revisão num momento de tantos problemas. A ideia é levar um dia de cada vez, buscando resolver o que faça sentido para aquele dia”, explica Elídio Almeida. Segundo o especialista, é preciso entender que problemas mais urgentes surgirão na quarentena – crianças, emprego, saúde – e que a união para resolvê-los talvez ajude mais o casal no momento do que partir para rever toda a relação.

 

“O importante é buscar o bem-estar para hoje e deixar as questões do relacionamento para o momento propício. Não é ignorar os problemas, é entender que talvez existam questões mais urgentes para o casal a serem resolvidas nessa fase difícil” – Elídio Almeida.

FONTE: Correio*
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